A águia sobrevoava os campos verdes com graça. O vento soprava, soprava continuo e feliz, um vento agradável, um sopro quente e carinhoso que impulsionava a poderosa ave de rapina, movia a grama verde dos campos, e fazia cavalgarem as nuvens no topo da abóboda celeste. O sol brilhava por entre intervalos onde não havia os grandes castelos de nuvens, brilhava sorrindo para a águia.
Os campos verdes de grama eram contínuos, indo até onde a vista da poderosa fera alcançava. Era como um mar de verde, com suas colinas e vales seguindo a ondulação natural do mar, e o movimento da grama ao sabor do vento como o movimento das ondas. A águia era de um cinza sábio, e também se deixava impulsionar pelo poder do vento. Essa era a sua graça, poder desafiar o vento, e mesmo assim seguir sabiamente sobre seus sopros. Seus olhos âmbares saboreavam a tudo, suas penas cortando o vento. Ela era sábia, grandiosa. Não era uma ave como as que vemos, era uma majestade entre as suas, uma forma de imperiosidade, a imperiosidade natural ao fluido do universo, não a imperiosidade imposta pelos homens. Sua sombra cortava canto a canto cada vale e cada colina. O sol lhe aquecia, como era seu desejo.
E para assistir a toda essa cena de sonhos, uma mulher deitada sobre a grama, o longo vestido branco espalhado no chão e um sorriso no rosto via o galgar das nuvens gigantescas, e via o velho amigo vento. Seus longos cabelos negros estavam espalhados em leque por suas costas, seus olhos de um castanho bronze brilhavam com os raios de sol que cortavam as nuvens, lindos em sua natureza. E ela viu a águia.
A majestade dos céus cruzou sobre sua cabeça, e sua sombra repentina a fez soltar um grito de susto. Não algo ruim o susto proveniente do terror, mas um susto de uma surpresa agradável. Acompanhou com os olhos o voo de liberdade da majestade dos ventos, da criatura que cruzara seu caminho. Reparou como a majestade, com a força de suas asas para subjugar o vento, apenas mantinha-se em seu doce e morno sopro, seguindo a vontade daquele ser mais sábio que o senhor.
Ela viu as nuvens, os grandes castelos que se moviam ao sabor do céu, e se levantou. Admirou a grama que também era fiel seguidora do vento. Eram verdes como esmeraldas, lindas, cada pequeno tufo não esquecendo de seu lugar, no sopro continuo do vento. A águia piou alto, e a mulher riu de gosto. Invejou aquilo tudo que se movia ao sabor do vento, e quis se erguer para experimentar isso também.
Riu quando o vento soprou por entre seus braços abertos. Olhou para o lado, e voando ao seu lado, partilhando dos céus, a águia parecia lhe sorrir com os altivos olhos dourados. Ela lhe piscou um olho, o vestindo esvoaçando atrás dela. Eles voaram brincando entre os raios de sol, dançando em torno dos quentes cilindros de luz que cortavam os intervalos entre as nuvens.
Esvoaçaram próximos a grama dançante. Ela se surpreendeu como, o vento, e só ele, conseguia fazer com que, cada pequeno tufo, cada grama no mar de esmeralda dança-se segundo a mesma voz, o mesmo ritmo em comparação com as suas. Ela jamais havia visto algo de tamanha harmonia, tamanha beleza. E então, em meio a reflexão, se aproximaram das nuvens.
Sentiu, ao passar por debaixo delas, próxima a tocá-las, um terror absurdo. A luz esvaiu-se quase toda, e ela viu como o vento era selvagem, frio, e aparentemente cruel. Como as coisas ao seu redor pareciam ameaçadoras, e como as formas das nuvens pareciam pequenas faces, a sorrir-lhe em meio a sua desgraça. Parecia-lhe que o mundo havia escurecido, e ela olhou desesperada para o gavião. Este só olhava para frente, mas ela sentiu também o aperto no coração do colega. Ambos voaram por debaixo daquela sombra até sentir novamente o calor dos raios de sol.
Quando o calor do sol, e o sopro aconchegante do vento voltaram a inundar a mulher, ela suspirou aliviada. Debaixo da nuvem, o vento parecia frio. Agora, sentindo o mesmo vento que soprava por debaixo das nuvens, ela viu que, em sua essência, o vento era o mesmo, o que favorecia-o, eram os raios de sol, ou a escuridão das nuvens.
Então, repentinamente, seu colega de aventuras deu impulso com suas asas e foi em direção a este buraco entre as nuvens. Rindo novamente, a mulher também foi ao seu encontro, seguindo o calor do raio de sol. Ela voava por entre os fios de calor, acompanhando o bater de asas da criatura poderosa a quem seguia. Eles iam, subindo e subindo, sempre em direção ao sol, quente e amigável, cruzando as nuvens que a assustaram, se pondo acima delas. E quando cruzaram a camada de nuvens, ela sorriu de orelha a orelha.
Viu a mesma nuvem pela qual passaram muito menor do que imaginara. Ela agora não passava de um pequeno carneirinho felpudo, algo que a fez corar de vergonha de seu horror repentino. A águia estava pousada num poleiro sobre a nuvem, e lhe sorriu com a cabeça. Ela lhe sorriu de volta, vendo que sua ignorância lhe provocara horrores atoa, e logo ambos estavam gargalhando da gafe.
Mas então a águia lhe olhou sério, repentinamente e lhe apontou uma nuvem mais acima. Indicou, sem pesar ou ressentimento, sem pena, para aquela nuvem gigantesca, com suas formas constantemente a mudar, alterando o formato do grande castelo de água. A águia agitou as asas, arqueou as costas e deu impulso. Não vendo alternativa, a mulher seguiu-o, apreensiva.
Eles voaram em direção à nuvem, e novamente a sombra da nuvem a assustou, mas não tanto dessa vez. Dessa vez ela sentiu o medo, mas o combateu, lembrando-se do problema menor que a assustara muito mais. Ela sabia que a poderosa nuvem era menor do que lhe parecia desse ponto, e que mesmo maior, ela estava pronta para isso. O que mais a ajudou, a cruzar o momento de escuridão, fora lembrar-se que o mesmo vento que a guiava, guiava e águia, e a guiara nos momentos de sol e nuvem. Não desconfiaria desse aliado uma vez mais.
Após longos minutos de resoluta perseverança, ambos, mulher e animal cruzaram por debaixo da grande nuvem, e mais uma vez deixando para trás a nuvem, eles subiram, sempre subindo até sua superfície. Mulher e águia estavam cansadas, e pousaram na nuvem macia.
Estavam ambos deitados, saboreando o calor do sol. Na verdade, apenas mulher. A águia sorria com os olhos para o rei celeste. Enquanto pousados na nuvem, resolveram visitar os aposentos daquele castelo divino. A águia sorria com os olhos, mais do que nunca o brilho âmbar, e a mulher se perguntava o que se passava na cabeça do caçador.
Caminharam por longos momentos pelos salões e aposentos do castelo. Viu uma balança, com dois pratos de cores diferentes. Viu pessoas de rostos austeros, mas que não conhecia. Viu pessoas que iradas não encontravam a saída daquele labirinto, sem em nenhum momento, saboreá-lo. Então viu.
No saguão do castelo, estavam ali todos seus familiares que ela deixara para trás. Aqueles que estiveram sempre ao seu lado, e que ela acreditara que a haviam deixado. Parentes, amigos, familiares e amores passados. Olhou incrédula para eles, em um minuto que facilmente poderia ter levado anos, e depois se voltou para a águia buscando uma confirmação. A ave simplesmente olhou para baixo, e acompanhando o olhar do poderoso, viu que o chão do castelo era cristalino, e ela via as colinas verdes lá de baixo, e todo o mundo correndo ao sabor do vento. Lá seu corpo repousava tranquilo. Ela olhou novamente para a águia, e viu que o pássaro se transformara, e agora, ao seu lado, um homem lhe sorria, e lhe indicava sua família, que lhe acenava.
Ela sorriu, e compreendeu. Abraçou o homem, que era um senhor, e seus cabelos brancos lhe foram um abraço. Seus braços foram o calor do sol, e ela descobriu que a todo o momento tinha sido guiada, não por uma águia, mas pelo vento, pelo sol, e pelas nuvens, por tudo que a cercara, que era a criatura incrível a sua frente. Abraçou-lhe com força, e com lágrimas nos olhos, desceu galgando as nuvens. Voltou ao campo verde, e não via mais sua família pela nuvem, mas sabia que eles a olhavam. E sabia que era guiada invariavelmente a eles.
Voltou de encontro a seu corpo, e juntou-se novamente aquele corpo que em sono, voltava-se com um sorriso para o céu.
E seus olhos só voltaram a se abrir dentro de seu quarto. Ela viu o ventilador girando levemente no teto. Olhou o livro aberto na pagina que lera antes de cair no sono em sua cabeceira. Levantou-se devagar, e caminhou até a janela. Desligou o abajur sobre a escrivaninha. Abriu a janela, e olhou para o céu. Era noite, mas o vento da cidade soprou sobre seu rosto. Trazia um cheiro de orvalho como condizia com as cores escuras da noite. Ela sorriu para o amigo. Olhou para cima, e sorriu para aqueles que a olhavam felizes.
Sorrindo, voltou para a cama, onde teve um sono sem sonhos.
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