quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Sopro Do Vento

        A águia sobrevoava os campos verdes com graça. O vento soprava, soprava continuo e feliz, um vento agradável, um sopro quente e carinhoso que impulsionava a poderosa ave de rapina, movia a grama verde dos campos, e fazia cavalgarem as nuvens no topo da abóboda celeste. O sol brilhava por entre intervalos onde não havia os grandes castelos de nuvens, brilhava sorrindo para a águia.

                Os campos verdes de grama eram contínuos, indo até onde a vista da poderosa fera alcançava. Era como um mar de verde, com suas colinas e vales seguindo a ondulação natural do mar, e o movimento da grama ao sabor do vento como o movimento das ondas. A águia era de um cinza sábio, e também se deixava impulsionar pelo poder do vento. Essa era a sua graça, poder desafiar o vento, e mesmo assim seguir sabiamente sobre seus sopros.

                Seus olhos âmbares saboreavam a tudo, suas penas cortando o vento. Ela era sábia, grandiosa. Não era uma ave como as que vemos, era uma majestade entre as suas, uma forma de imperiosidade, a imperiosidade natural ao fluido do universo, não a imperiosidade imposta pelos homens. Sua sombra cortava canto a canto cada vale e cada colina. O sol lhe aquecia, como era seu desejo.

                E para assistir a toda essa cena de sonhos, uma mulher deitada sobre a grama, o longo vestido branco espalhado no chão e um sorriso no rosto via o galgar das nuvens gigantescas, e via o velho amigo vento. Seus longos cabelos negros estavam espalhados em leque por suas costas, seus olhos de um castanho bronze brilhavam com os raios de sol que cortavam as nuvens, lindos em sua natureza. E ela viu a águia.

                A majestade dos céus cruzou sobre sua cabeça, e sua sombra repentina a fez soltar um grito de susto. Não algo ruim o susto proveniente do terror, mas um susto de uma surpresa agradável. Acompanhou com os olhos o voo de liberdade da majestade dos ventos, da criatura que cruzara seu caminho. Reparou como a majestade, com a força de suas asas para subjugar o vento, apenas mantinha-se em seu doce e morno sopro, seguindo a vontade daquele ser mais sábio que o senhor.

Ela viu as nuvens, os grandes castelos que se moviam ao sabor do céu, e se levantou. Admirou a grama que também era fiel seguidora do vento. Eram verdes como esmeraldas, lindas, cada pequeno tufo não esquecendo de seu lugar, no sopro continuo do vento. A águia piou alto, e a mulher riu de gosto. Invejou aquilo tudo que se movia ao sabor do vento, e quis se erguer para experimentar isso também.

                Riu quando o vento soprou por entre seus braços abertos. Olhou para o lado, e voando ao seu lado, partilhando dos céus, a águia parecia lhe sorrir com os altivos olhos dourados. Ela lhe piscou um olho, o vestindo esvoaçando atrás dela. Eles voaram brincando entre os raios de sol, dançando em torno dos quentes cilindros de luz que cortavam os intervalos entre as nuvens.

Esvoaçaram próximos a grama dançante. Ela se surpreendeu como, o vento, e só ele, conseguia fazer com que, cada pequeno tufo, cada grama no mar de esmeralda dança-se segundo a mesma voz, o mesmo ritmo em comparação com as suas. Ela jamais havia visto algo de tamanha harmonia, tamanha beleza. E então, em meio a reflexão, se aproximaram das nuvens.

                Sentiu, ao passar por debaixo delas, próxima a tocá-las, um terror absurdo. A luz esvaiu-se quase toda, e ela viu como o vento era selvagem, frio, e aparentemente cruel. Como as coisas ao seu redor pareciam ameaçadoras, e como as formas das nuvens pareciam pequenas faces, a sorrir-lhe em meio a sua desgraça. Parecia-lhe que o mundo havia escurecido, e ela olhou desesperada para o gavião. Este só olhava para frente, mas ela sentiu também o aperto no coração do colega. Ambos voaram por debaixo daquela sombra até sentir novamente o calor dos raios de sol.

Quando o calor do sol, e o sopro aconchegante do vento voltaram a inundar a mulher, ela suspirou aliviada. Debaixo da nuvem, o vento parecia frio. Agora, sentindo o mesmo vento que soprava por debaixo das nuvens, ela viu que, em sua essência, o vento era o mesmo, o que favorecia-o, eram os raios de sol, ou a escuridão das nuvens.

                Então, repentinamente, seu colega de aventuras deu impulso com suas asas e foi em direção a este buraco entre as nuvens. Rindo novamente, a mulher também foi ao seu encontro, seguindo o calor do raio de sol. Ela voava por entre os fios de calor, acompanhando o bater de asas da criatura poderosa a quem seguia. Eles iam, subindo e subindo, sempre em direção ao sol, quente e amigável, cruzando as nuvens que a assustaram, se pondo acima delas. E quando cruzaram a camada de nuvens, ela sorriu de orelha a orelha.

                Viu a mesma nuvem pela qual passaram muito menor do que imaginara. Ela agora não passava de um pequeno carneirinho felpudo, algo que a fez corar de vergonha de seu horror repentino. A águia estava pousada num poleiro sobre a nuvem, e lhe sorriu com a cabeça. Ela lhe sorriu de volta, vendo que sua ignorância lhe provocara horrores atoa, e logo ambos estavam gargalhando da gafe.

                Mas então a águia lhe olhou sério, repentinamente e lhe apontou uma nuvem mais acima. Indicou, sem pesar ou ressentimento, sem pena, para aquela nuvem gigantesca, com suas formas constantemente a mudar, alterando o formato do grande castelo de água. A águia agitou as asas, arqueou as costas e deu impulso. Não vendo alternativa, a mulher seguiu-o, apreensiva.

                Eles voaram em direção à nuvem, e novamente a sombra da nuvem a assustou, mas não tanto dessa vez. Dessa vez ela sentiu o medo, mas o combateu, lembrando-se do problema menor que a assustara muito mais. Ela sabia que a poderosa nuvem era menor do que lhe parecia desse ponto, e que mesmo maior, ela estava pronta para isso. O que mais a ajudou, a cruzar o momento de escuridão, fora lembrar-se que o mesmo vento que a guiava, guiava e águia, e a guiara nos momentos de sol e nuvem. Não desconfiaria desse aliado uma vez mais.

Após longos minutos de resoluta perseverança, ambos, mulher e animal cruzaram por debaixo da grande nuvem, e mais uma vez deixando para trás a nuvem, eles subiram, sempre subindo até sua superfície. Mulher e águia estavam cansadas, e pousaram na nuvem macia.

                Estavam ambos deitados, saboreando o calor do sol. Na verdade, apenas mulher. A águia sorria com os olhos para o rei celeste. Enquanto pousados na nuvem, resolveram visitar os aposentos daquele castelo divino. A águia sorria com os olhos, mais do que nunca o brilho âmbar, e a mulher se perguntava o que se passava na cabeça do caçador.

Caminharam por longos momentos pelos salões e aposentos do castelo. Viu uma balança, com dois pratos de cores diferentes. Viu pessoas de rostos austeros, mas que não conhecia. Viu pessoas que iradas não encontravam a saída daquele labirinto, sem em nenhum momento, saboreá-lo. Então viu.

                No saguão do castelo, estavam ali todos seus familiares que ela deixara para trás. Aqueles que estiveram sempre ao seu lado, e que ela acreditara que a haviam deixado. Parentes, amigos, familiares e amores passados. Olhou incrédula para eles, em um minuto que facilmente poderia ter levado anos, e depois se voltou para a águia buscando uma confirmação. A ave simplesmente olhou para baixo, e acompanhando o olhar do poderoso, viu que o chão do castelo era cristalino, e ela via as colinas verdes lá de baixo, e todo o mundo correndo ao sabor do vento. Lá seu corpo repousava tranquilo. Ela olhou novamente para a águia, e viu que o pássaro se transformara, e agora, ao seu lado, um homem lhe sorria, e lhe indicava sua família, que lhe acenava.

                Ela sorriu, e compreendeu. Abraçou o homem, que era um senhor, e seus cabelos brancos lhe foram um abraço. Seus braços foram o calor do sol, e ela descobriu que a todo o momento tinha sido guiada, não por uma águia, mas pelo vento, pelo sol, e pelas nuvens, por tudo que a cercara, que era a criatura incrível a sua frente. Abraçou-lhe com força, e com lágrimas nos olhos, desceu galgando as nuvens. Voltou ao campo verde, e não via mais sua família pela nuvem, mas sabia que eles a olhavam. E sabia que era guiada invariavelmente a eles.

                Voltou de encontro a seu corpo, e juntou-se novamente aquele corpo que em sono, voltava-se com um sorriso para o céu.

                E seus olhos só voltaram a se abrir dentro de seu quarto. Ela viu o ventilador girando levemente no teto. Olhou o livro aberto na pagina que lera antes de cair no sono em sua cabeceira. Levantou-se devagar, e caminhou até a janela. Desligou o abajur sobre a escrivaninha. Abriu a janela, e olhou para o céu. Era noite, mas o vento da cidade soprou sobre seu rosto. Trazia um cheiro de orvalho como condizia com as cores escuras da noite. Ela sorriu para o amigo. Olhou para cima, e sorriu para aqueles que a olhavam felizes.

                Sorrindo, voltou para a cama, onde teve um sono sem sonhos.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Após o Fim

      

   Escuridão. Uma brisa escorregava, suave e lenta, soprando delicadamente um sopro de vida. Ou talvez um sopro de morte. De qualquer maneira, soprava sobre o corpo, estirado sobre a rocha. Um corpo grande de um soldado. Os músculos, que em vida costumavam vestir a grande armadura de batalha, encontravam-se nus até a virilha, onde um manto negro descia até a altura dos pés, cobrindo-lhe as pernas.  Os braços, com suas cicatrizes características, cruzados sobre o torso davam ao soldado a serenidade que não tiveram em vida.
Pois era um fato. Estava Morto.


Com o sopro continuo do vento da morte a soprar-lhe o rosto, os olhos se abriram lentamente, observando o que abria a sua volta. E não se surpreendeu com o que viu. Algo que se estendia eternamente, além do que sua visão alcançava, mas ao mesmo tempo mantendo-se estática, como se se esconde por trás de seu véu, segredos. Era uma cortina que o cercava, mantendo luz, que provinha de lugar nenhum, incidindo sobre ele. Pois aos seus pés, só viu aquela cortina, a cortina da ignorância que o transformara no monstro que fora em vida. A cortina da escuridão.

                Naquele lugar, tentou mover os braços. A vontade brotou-lhe na mente e os dedos tentaram se mover, para dar a seu dono a leve sensação de vida. Não conseguiu. Seu corpo não lhe obedecia. Ainda sentia a exaustão da ultima batalha, e das revelações que lhe foram feitas em seu derradeiro momento. Cansado, corpo e espirito pediram um descanso, que agora, após tantos anos, poderiam cobrar. No entanto, mente racional pediu por um tempo. Precisava de mais.

                O frio começou a lhe penetrar a mente também. A brisa que lhe acordara, agora soprava com um cheiro de flores cultivadas em casa. Um cheiro que passara a gostar em sua infância, antes que sua mente lhe mostrasse o que era. Um cheiro que sentia logo após manchar as mãos de vermelho. Um cheiro que acompanhava sua lâmina onde quer que fosse, e que agora, vinha lhe dizer que sim, era hora de descansar. Pois não havia duvida sobre o que era aquele cheiro, que sempre fora capaz de sentir.

                A brisa que antecede a morte, o abrigava-lhe em seu sopro e o colocava em um sono sem sonhos. A paz dos que morrem.



                                                                                              ...

                – Acorde minha criança, acorde.



                                                                                              ...



                Os olhos abriram-se novamente. Não, dessa vez, em uma tentativa de identificar a brisa da morte. Dessa vez, novamente, sua mente voltava a tomar-lhe conta o corpo. Não a mente racional e calculista, que usara em vida, mas a mente primitiva que nos guia a nossa natureza, que é um misto de nossos valores e experiências. Lentamente, o corpo foi erguendo-se do chão, a mente ainda zumbindo com o sono que tivera. Querendo fugir do torpor que este transmitia, acordou.

                Seus olhos ainda viam a escuridão. O véu ainda o separava do Mundo-Além-Deste, por uma razão que desconhecia. Afinal não era este o destino dos injustos e dos monstros como ele? Vagar, no poço de tormenta, eternamente com a consciência do que fizeram e do urro da injustiça daqueles que mataram a soprar-lhes os ouvidos, nunca conhecendo a brisa da morte, nem a paz daqueles que se vão? Depois de tudo que fizera, será que nem isso merecia? Nem mesmo a consciência de que era lembrado, mesmo que como monstro, pelos que deixara?

                Porém, antes que sequer a tristeza sobrepuja-se a confusão, algo rasgou o manto de escuridão ao longe. Algo, um ponto de luz surgiu na escuridão, um ponto que, insignificantemente abria caminho, lentamente, sobre a neblina de trevas ao seu redor. A luz insidia sobre algo que caminhava ao seu lado, lentamente. Era, como tudo naquele lugar, cinza e negro, magico e estéril, vivo e morto. Andava lentamente, carregando a luz em um recipiente, os pés arrastando-se pelo chão. O manto, cinza, cobria-lhe o corpo. Na face, a mandíbula despontava para fora do capuz, esquelética, apontando em direção ao homem.

                – Vamos minha criança. Devemos prosseguir – A voz reverberou pelo espírito, como fazem as vozes de todas as entidades que merecem destaque divino. Não era para menos que a voz daquele ser reverberava fundo no homem. Com ele, falava a Morte.

                – Para onde irei senhor? – perguntou o homem. Era curioso, como o primeiro sinal de humildade que tinha, não ocorrera em vida, e sim após sua morte.

                – Seu caminho não findou meu filho, por pouco, e terá que retornar uma vez mais antes de se elevar – Dizia o espectro. Sua voz alcançava o canto da alma que era reservado à inspiração. Falava como pai e juiz, julgando-lhe e mostrando compaixão. Em suas mãos segurava uma balança. – Terminastes teu aprendizado, levo-te agora para que ensine.  

Baixou os olhos, com tristeza e pesar, e após ser erguido pela entidade, seguiu-o para qualquer que fosse o lugar aonde iriam. O lugar, não era nada. Chão de terra, ou talvez fosse grama. Cinza era a cor predominante naquele lugar. A névoa se abria a luz da lanterna, que verde como jade rasgava aquele manto que o aprisionara.

                – Mantenha-se perto da luz, criança. Ela se chama Verdade, e sob as trevas desse manto, que se chama ignorância, ela prevalece. Afaste-se dela, e essas trevas o engoliram, e nem eu poderei resgatá-lo. – Alertou a morte, sem alterar a postura.

                Aproximando-se da Morte, o homem ouviu um som ao longe. Algo suave, um roçar de líquido sobre pedra. O som foi se intensificando, levemente, e crescendo aos poucos. Novamente, o cheiro delicioso do desabrochar das flores, aquele cheiro adocicado chegou-lhe as narinas. Ignorância já não era tão densa, e ele via que sobre seus pés, um corredor se formava, feito da pedra concreta que Verdade iluminava. Chegou então, a um rio. Sobre o rio, uma canoa, e sobre a canoa, um remo longo e cumprido.

               – Embarque criança. Este barco, só funciona quando impulsionado por Perseverança – Gesticulou para a vara longa que se encontrava sobre o barco. – Lhe darei ela, para que busque, com perseverança a minha luz. Você irá agora por esse rio. Acompanharei você, até que chegue ao seu destino. Afinal, ainda não está vivo.

                – Mas, senhor, o que me aguarda ao fim? Não sou eu um injusto, um impuro, alguém que, por prazer executou as maiores atrocidades ao espirito? Alguém que cometeu o assassinato da alma, a ferida da consciência, o envenenamento de corações? Não mereço o sofrimento eterno?

                – Meu filho, o único pecado que pode ser redimido é aquele cometido por ignorância. Dou-lhe a luz de Verdade, para que mantenha esse véu afastado de você. Deve se redimir agora. Depois será julgado – Com essas palavras, Morte subiu a canoa e, mantendo-se estático na traseira da embarcação, aguardou.

                Ainda atordoado, o homem pegou Perseverança, e com a força que conseguiu juntar de seu corpo, movimentou o barco. Pesadas eram as águas daquele rio. Precisou impulsionar Perseverança com toda a sua força, porem o barco manteve-se estático, como que aguardando por mais. Por algo que pareceram horas, dias, meses, anos, séculos, Athael tentou mover Perseverança sobre o rio, porém sem resultado. Seus músculos gemeram em protesto, sua mente lhe dizia tratar-se de algo impossível, seu espírito não sabia pelo que faziam aquilo.

                E então se jogou sobre a madeira carcomida do barco. Após o que pareceram anos, décadas de esforço, ou talvez houvesse sido apenas um segundo de vontade, ele se esquecera pelo que continuar, porque lutar. Nunca tivera um motivo real para isso em vida. Não seria na morte que teria.

                Pensando em tudo pelo que já havia passado em todas as atrocidades que cometeu, sentiu-se imundo. O sangue era agora, uma mancha terrível em sua alma, algo que só poderia ser limpo com justiça. Justiça sobre aqueles que caíram. Justiça para com aqueles que ainda viviam.

                Foi quando sua mente deixou os mortos e dirigiu-se aos vivos, que Perseverança se moveu. Surpreso, o soldado deixou o remo cair sobre o barco, os olhos arregalados por afinal mover tal objeto. A mente confusa, não assimilava o que acontecera. Nem chegara a exercer pressão sobre o remo, quando as imagens dos vivos que deixara, invadiram sua mente e Perseverança se moveu. Moveu-se, levemente, como os passos da Morte quando viera busca-lo. Perplexo, invocou as imagens novamente.

                As imagens da família que perdera com o tempo. Da infância, que lhe fora cruel, mas que soubera saborear, dos medos da infância, do fascínio perante as conquistas e surpresas da vida de jovem, da decepção e da tristeza rascante de um coração partido, e as maiores ainda de se partir outro. Lembrou-se dos olhos castanhos, dos olhos claros, das palavras doces e dos lábios mais doces ainda. Lembrou-se do carinho materno, que recebera não somente de sua mãe, e da falta dele por quem lhe devia. Lembrou-se de todos em vida.

                Os vivos que amara, agora lhe davam força. O remo já não era mais estático, e Perseverança funcionava, quando impulsionada por aquelas lembranças. Elas também alimentavam o homem. Jamais se perdoaria pelo que fez, e as imagens de seus pecados lhe assombrariam as noites de sono eternamente. Porém, não remoía a tristeza. Deixava brotar a esperança em seu peito.

                As águas a sua volta agora aceleravam. O barco movia-se rapidamente, as sombras da Ignorância se afastavam com velocidade, fechando-se logo que Verdade as transpunha como uma lâmina. Respingos da água se faziam sentir, com mais intensidade a cada vez que Perseverança tocava-as. A cada remada as gotas que lhe salpicavam o rosto tinham a textura fria do mar, e o cheiro áspero do sal. Ignorância começava a dissipar-se a sua volta, e viu-se adentrando uma gruta.

                Agora, o barco voltava a desacelerar o ritmo. O túnel prosseguia, feito de pedra bruta escavada pelas águas até que a vista se perdesse. Virou-se para ver a Morte, que lhe fora tanto companheira em vida, como após ela. Seu manto ainda existia, o queixo cadavérico apontando para frente. Pousada sobre seu joelho, uma balança de ferro, com um prato de prata e o outro negro encontrava-se perfeitamente equilibrada. Na mão direita erguida acima do barco, Verdade iluminava as regiões próximas com uma luz verde que lhe aquecia o coração.

                – Agora criança uma ultima coisa – Disse a Morte. – Lhe darei um pouco do brilho de Verdade. Quando ingressar no mundo dos vivos, saberá o que fazer, mas não porque o faz. Verdade viajará com você, para que nunca mais caia nas sombras da Ignorância. – E com essas palavras, o espectro imobilizou-se. A luz de Verdade apagou-se, deixando só uma pequena sombra dentro da lanterna.

                Aproximando-se, o homem viu que a Morte, agora era uma simples estátua do barco, uma figura entalhada. A balança se transformara em pedra simples, e a lanterna perdera sua majestade. Abriu-a, e encontrou Verdade, uma pequena pedra verde, segura por um fio de prata. Amarrou-o no pescoço e olhou a frente. Alguns metros à frente, uma luz se abria no fim do túnel. Sorriu. Poderia recomeçar.